segunda-feira, 23 de março de 2015

Concurso Professor SESI 2015 (cadastro reserva)

Estão abertas de 23/03/15 a 12/04/15 as inscrições para o processo seletivo de professores do SESI SP.


EVENTO
DATA
PERÍODO DE INSCRIÇÕES
23/03 a 12/04/2015
PUBLICAÇÃO DAS INSCRIÇÕES DEFERIDAS
20/04/2015
PUBLICAÇÃO DOS LOCAIS DE PROVA – CONVOCAÇÃO
27/04/2015
PROVA TEÓRICA
03/05/2015
PUBLICAÇÃO GABARITO PRELIMINAR/ PROVAS
04/05/2015
RESPOSTA AOS RECURSOS E PUBLICAÇÃO DORESULTADO FINAL PARCIAL
25/05/2015
CONVOCAÇÃO PRÓXIMAS ETAPAS - BANCA
DE ACORDO COM O SURGIMENTO DE VAGAS


INSCRIÇÕES NO SITE: 







sexta-feira, 13 de março de 2015

A morte de Sócrates “(...) Depois destas palavras de Sócrates, Críton falou: - Então, que ordens nos dás, Sócrates, a estes ou a mim, a respeito de teus filhos ou de qualquer outro assunto? Quanto a nós, essa seria, por amor a ti, nossa tarefa mais importante! - Justamente, Críton, não cesso de falar sobre ela – respondeu – e nada de novo tenha para vos dizer! Vede: cuidai de vós próprios, e de vossa parte então toda tarefa será feita com amor, tanto a mim e aos meus quanto a vós mesmos, ainda que não tenhais assumido esse compromisso. Suponhamos, pelo contrário, que de vós próprios não tomeis cuidado, e que não queirais absolutamente viver em conformidade com o que foi dito tanto hoje como em outras ocasiões. Então quaisquer que possam ser hoje o número e a força de vossas promessas, nada tereis adiantado! - Poremos todo nosso coração, naturalmente – disse Críton – em conduzir-nos dessa forma. Mas como haveremos de enterrar-te? - Como quiserdes – respondeu -, isto é, se conseguirdes reter-me a mim, e se eu não vos escapar! – Então riu-se docemente e, voltando-se para nós, disse: - Não há meio, meus amigos, de convencer Críton de que o que eu sou é este Sócrates que se acha presentemente conversando convosco e que regula a ordem de cada um de seus argumentos! Muito ao contrário, está persuadido de que eu sou aquele outro Sócrates cujo cadáver estará daqui a pouco diante de seus olhos; e ei-lo a perguntar como me deve enterrar! E quanto ao que desde há muito venho repetindo – que depois de tomar o veneno não estarei mais junto de vós, mas me encaminharei para a felicidade que deve ser a dos bem-aventurados – tudo isso, creio, eram para ele vãs palavras, meras consolações que eu procurava dar-vos, ao mesmo tempo que a mim mesmo! Sede, pois, meus fiadores junto a Críton, garantindo-lhe o contrário daquilo que ele afiançou aos juízes. Ele jurou que eu ficaria no meio de vós; vós, porém, afirmai-lhe que não ficarei entre vós quando morrer, mas que partirei, que me irei embora! Este é o único meio de fazer com que esta provação seja mais suportável a Críton, o meio de evitar que, vendo queimar ou enterrar meu corpo, se impressione e pense estou sofrendo dores inenarráveis, e que no decorrer dos funerais diga estar expondo Sócrates, conduzindo – à sepultura e enterrando-o! (...). Dito isso, Sócrates pôs-se de pé, e, para banhar-se passou a outra peça. Críton seguiu-o, fazendo-nos sinal que esperássemos. Ficamos, pois, a conversar e a examinar tudo quanto se havia dito (...). Verdadeiramente, era para nós como se perdêssemos um pai, e iríamos passar como órfãos o resto de nossa vida! Depois de se ter banhado, trouxeram-lhe seus filhos (tinha dois pequenos e um já grande), e as mulheres de casa também vieram; entreteve-se com eles em presença de Críton, fazendo-lhes algumas recomendações. Em seguida ordenou que sem retirassem e veio para junto de nós. Já o sol estava próximo de recolher-se, pois Sócrates havia passado muito tempo no outro quarto. Ao voltar do banho sentou-se novamente, e a conversa desta vez durou pouco. Apresentou-se então o servidor dos Onze, e, em pé, diante dele disse: - Sócrates, por certo não me darás a mesma razão de queixa que tenho contra os outros! Esses se enchem de cólera contra mim e me cobrem de imprecações quando os convido a tomar o veneno, porque tal é a ordem dos Magistrados. Tu, como tive muitas ocasiões de verificar, és o homem mais generoso, o mais brando e o melhor de todos aqueles que passaram por este lugar. E, muito particularmente hoje, estou convencido de que não será contra mim que sentirás ódio, pois conheces os verdadeiros culpados, mas contra eles. Não ignoras o que vim anunciar-te, adeus! Procura suportar da melhor forma o que é necessário! Ao mesmo tempo pôs-se a chorar e, escondendo a face, retirou-se. Sócrates tendo levantado os olhos para ele: - Adeus! – disse. – Seguirei o teu conselho. Depois, voltando-se para nós: - Quanta gentileza neste homem! Durante toda a minha permanência aqui veio várias vezes ver-me, e até conversar comigo. Excelente homem! E, hoje, quanta generosidade no seu pranto! Pois bem, avante! Obedeçamos-lhe, Críton, e que me tragam o veneno se já está preparado; se não, que o prepare quem o deve preparar! Então disse Críton: - Mas, Sócrates, o Sol se não me engano está ainda sobre as montanhas e não se deitou de todo. Ademais, ouvi dizer que outros beberam o veneno só muito tempo depois de haverem recebido a intimação, e após terem comido e bebido bem, e alguns, até, só depois de haverem tido contato com as pessoas que desejaram. Vamos! Nada de precipitações; ainda há muito tempo! Ao que Sócrates respondeu: - É muito natural, Críton, que as pessoas de quem falas tenham feito o que dizes, pensando que ganhavam alguma coisa fazendo o que fizeram. Mas, quanto a mim, é natural que eu não faça nada disso, pois penso que tomando o veneno um pouco mais tarde nada ganharei, a não ser, tornar-me para mim mesmo um objeto de riso, agarrando-me dessa forma à vida e procurando economizá-la quando dela nada mais resta! Mas temos falado demais: vai, obedece, e não me contraries. Assim admoestado, Críton fez sinal a um de seus servidores que se mantinham nas proximidades. Este saiu e retornou daí a poucos instantes, conduzindo consigo aquele que devia administrar o veneno. Este homem o trazia numa taça. Ao vê-lo Sócrates disse: - Então, meu caro! Tu que tens experiência disto, que é preciso que eu faça? - Nada mais – respondeu - do que dar umas voltas caminhando, depois de haver bebido, até que as pernas se tornem pesadas, e em seguida ficar deitado. Desse modo o veneno produzirá seu efeito. Dizendo isso, estendeu a taça a Sócrates. Este a empunhou. Equécrates, conservando toda a sua serenidade, sem um estremecimento, sem uma alteração, nem da cor do rosto, nem dos seus traços. Olhando em direção do homem, um pouco por baixo e perscrutadoramente, como era seu costume, assim falou: - Dize-me, é ou não permitido fazer com esta beberagem uma libação às divindades? - Só sei, Sócrates, que trituramos a cicuta em quantidade suficiente para produzir seu efeito, nada mais. - Entendo. Mas pelo menos há de ser permitido, e é mesmo um dever, dirigir aos deuses uma oração pelo bom êxito desta mudança de residência, daqui para além. É esta minha prece; assim seja! E em seguida, sem sobressaltos, sem relutar nem dar mostras de desagrado, bebeu até o fundo. Nesse momento nós, que então conseguíramos com muito esforço reter o pranto, ao vermos que estava bebendo, que já havia bebido, não nos contivemos mais. Foi mais forte do que eu. As lágrimas me jorraram em ondas, embora, com a face velada, estivesse chorando apenas a minha infelicidade! Sim, a infelicidade de ficar privado de um tal companheiro! De resto, incapaz, muito antes de mim, de conter seus soluços, Críton se havia levantando para sair. E Apolodoro, que mesmo antes não cessara um instante de chorar, se pôs então, como lhe era natural, a lançar tais rugidos de dor e de cólera, que todos os que o ouviram sentiram-se comovidos, salvo, é verdade, o próprio Sócrates: - Que estais fazendo? – exclamou. – Que gente incompreensível! Se mandei as mulheres embora, foi sobretudo para evitar semelhante cena, pois, segundo me ensinaram, é com belas palavras que se deve morrer. Acalmai-vos, vamos! dominai-vos! Ao ouvir esta linguagem, ficamos envergonhados e contivemos as lágrimas. Quanto a Sócrates, pôs-se a dar umas voltas no quarto, até que declarou sentir pesadas pernas. Deitou-se de costas, assim como havia como havia recomendado o homem. Ao mesmo tempo, este aplicando as mãos aos pés e às pernas, examinava-os por intervalos. Em seguida, tendo apertado fortemente o pé, perguntou se o sentia. Sócrates disse que não. Depois disso recomeçou no tornozelo, e, subindo aos poucos, nos fez ver que Sócrates começava a ficar frio e a enrijecer-se. Continuando a apalpá-lo declarou-nos que quando aquilo chegasse até o coração, Sócrates ir-se-ia. Sócrates já se tinha tornado rijo e frio em quase toda a região inferior do ventre, quando descobriu sua face, que havia velado, e disse estas palavras, as derradeiras que pronunciou: - Críton, devemos um galo a Asclépio; não te esqueças de pagar essa dívida. - Assim farei – respondeu Críton. – Mas vê se não tens mais nada para dizer-nos. A pergunta de Críton ficou sem resposta. Ao cabo de breve instante, Sócrates fez um movimento. O homem então o descobriu. Seu olhar estava fixo. Vendo isso, Críton lhe cerrou a boca e os olhos. Tal foi, Equécrates, o fim de nosso companheiro. O homem de quem podemos bendizer que, entre todos os de seu tempo que nos foi dado conhecer, era o melhor, o mais sábio e o mais justo.” PLATÃO. Fédon. São Paulo: Nova Cultural, 1983.p. 123-5. (Os pensadores).

domingo, 1 de março de 2015

O Amor

"O Amor (...) está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis com efeito o que se dá. Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio - pois já é -, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábio; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar, quem não é um homem distinto e gentil, nem inteligente, que lhe basta assim. Não deseja portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso. 

Quais então (...) os que filosofam, se não são nem sábios, nem ignorantes? (...) São os que estão entre esses dois extremos, e um deles seria o Amor. Com efeito, uma das coisas mais belas é a sabedoria, e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o Amor ser filósofo e, sendo filósofo, estar entre o sábio e o ignorante".

PLATÃO. O Banquete. Trad. José Cavalcante de Souza. 5. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. p. 35-36 (Os pensadores). (Fragmento)

O mito do nascimento de Eros

"Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Poros, o esperto. Enquanto se banqueteavam, aproximou-se Penia, a Penúria, para mendigar as sobras da festa, e sentou-se à porta. Embriagado pelo néctar, pois o vinho ainda não existia, Poros se encaminhou para os jardins de Zeus e lá adormeceu, dominado pela embriaguez. Foi então que Penia, em sua miséria, desejou ter um filho de Poros. Deitou-se a seu lado e concebeu a Eros, o amor. Por esse motivo é que Eros tornou-se mais tarde companheiro e servidor de Afrodite, pois foi concebido no dia em que esta nasceu.

Além disso, Eros, devido à sua natureza, ama o que é belo e, como sabemos, Afrodite é bela. E por ser filho de Poros e Penia, Eros tem o seguinte fado: é pobre, e muito longe está de ser delicado e belo, como todos vulgarmente pensam. Eros, na realidade, é rude, é sujo, anda descalço, não tem lar, dorme no chão duro, junto aos umbrais das portas, ou nas ruas, sem leito nem conforto. Segue nisso a natureza da mãe que vive na miséria.

Por influência da natureza que recebeu do pai, Eros dirige a atenção para tudo que é belo e gracioso: é bravo, audaz, constante e grande caçador: está sempre a deliberar e urdir maquinações, a desejar e a adquirir conhecimentos, filosofa durante toda sua vida; é grande feiticeiro, mago e sofista.

Não vive, propriamente, nem como imortal nem como mortal. No mesmo dia, ora floresce e vive, ora morre e renasce, se tem sorte, graças aos dons recebidos pela herança paterna. Rapidamente passam pelas suas mãos os proveitos que lhe trazem a sua esperteza. Assim, nunca se encontra em completo estado de miséria, nem, tampouco, na opulência.

Oscila, igualmente, entre a sabedoria e a tolice: devido ao seguinte motivo: nenhum dos deuses, como é claro, exerce a filosofia, ou deseja ser sábio, pois que como deus já o é; quem é sábio não filosofa; não filosofa nem deseja ser sábio, também, quem é tolo, e aí reside o maior defeito da tolice: em considerar-se como alguma coisa de perfeito, conquanto, na realidade, não seja nem justa nem inteligente. E quem não se considera incompleto e insuficiente, não deseja aquilo cuja falta não pode notar."

Platão, Banquete, 203b

domingo, 23 de março de 2014

Por isso jamais devemos nos calar diante das injustiças e do desrespeito

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

(Bertold Brecht, dramaturgo e poeta alemão)

quinta-feira, 20 de março de 2014

A historicidade da filosofia

Refere-se por vezes a historicidade da filosofia, sem que os estudantes compreendam cabalmente do que se trata. Outras vezes, esquece-se este aspecto da filosofia. Estas linhas pretendem esclarecer este aspecto da Filosofia. 


Em primeiro lugar, a historicidade da filosofia não é a ideia de que os problemas da filosofia surgem nas obras dos filósofos do passado. Os problemas da filosofia surgem naturalmente quando qualquer pessoa se põe a pensar em alguns aspectos da realidade:
  • O que é o tempo, realmente?
  • Será imoral maltratar os animais?
  • Sabemos realmente alguma coisa, ou poderá ser tudo uma ilusão, como num sonho?
Além de surgirem naturalmente, os problemas da filosofia não existem apenas nas obras dos filósofos do passado — pelo simples motivo de que também há filosofia no presente. Aliás, há mais filósofos hoje em dia do que em todas as épocas históricas juntas. Tal como há mais artistas e cientistas do que houve no passado. Portanto, a chamada "historicidade da filosofia" não quer dizer nem que a filosofia não é uma disciplina viva, que surge sempre que nos pomos a pensar, nem quer dizer que a filosofia é uma coisa só do passado.
Em segundo lugar, e mais importante, a historicidade da filosofia não é também a ideia de que o trabalho que nos resta fazer hoje é meramente compreender, comentar e analisar as obras dos filósofos do passado. Esta seria uma visão muito redutora da filosofia, e não corresponde sequer ao que os mais importantes filósofos da actualidade fazem (pense-se em Kripke ou Derrida, por exemplo). Este aspecto é muitíssimo importante porque determina o tipo de ensino que a filosofia exige. Dado que a filosofia não é o mesmo do que a história da filosofia, nem o mesmo do que a história das ideias, ensinar filosofia não pode ser como ensinar história da pintura; tem de ser, ao invés, algo mais parecido ao ensino da pintura em si. E, como é óbvio, no ensino da pintura em si estudam-se também os grandes mestres do passado. Mas o objectivo final é saber pintar quadros, e não apenas saber apreciar a obra dos grandes pintores do passado. O mesmo acontece no ensino da filosofia: o objectivo não é apenas compreender os grandes filósofos do passado e do presente, se bem que isso também seja feito; o objectivo é saber fazer filosofia.
O que dificulta a compreensão da relação peculiar que a filosofia mantém com a sua história é o facto de o progresso em filosofia ser muito diferente do tipo de progresso que se observa na ciência. Na ciência há, pelo menos aparentemente (apesar de filósofos como Kuhn negarem em parte esta ideia), uma acumulação de resultados. Isto tem implicações importantes no ensino, pois significa que não se perde tempo a ensinar a física de Ptolomeu, por exemplo, para depois a comparar com a física de Newton, comparando depois esta com a física de Einstein. Ao invés, ensinam-se os resultados mais recentes e operatórios da física, sem mencionar teorias que entretanto foram ultrapassadas por teorias melhores. O mesmo não se pode fazer em filosofia: não se pode ensinar unicamente a mais recente teoria dos universais, por exemplo, ou a mais recente teoria ética, como se fossem teorias consensualmente aceites pelos especialistas. É que, ao contrário do que acontece em ciência, não há em filosofia um corpo vasto de conhecimentos consensuais e cristalizados. A filosofia é, essencialmente, discussão de ideias e especulação. Isto tem implicações importantes para o ensino da filosofia, pois não se pode dar ao estudante a ideia falsa de que as últimas teorias hermenêuticas, fenomenológicas, existencialistas, pós-modernistas, marxistas ou fascistas são a última palavra, no mesmo sentido em que a física de Einstein é, até hoje, a última palavra nessa área.
No caso da física, por exemplo, a simples compreensão e domínio do que se sabe hoje exige anos de estudo. Só a nível do doutoramento, e só em algumas universidades, pode um estudante de física dominar já suficientemente o que se sabe para se poder dedicar à investigação — isto é, ao estudo do que não se sabe, procurando dar a sua contribuição. Mas isto não acontece na filosofia. Em filosofia, é necessário relativamente pouco tempo para se chegar às fronteiras do conhecimento. Se uma pessoa não pode começar a filosofar cabalmente desde logo é só porque apesar de não haver praticamente qualquer corpo estabelecido de teorias, em filosofia, há no entanto dois factores importantes que o impedem. São estes factores que fazem a diferença entre um domínio profissional da filosofia e uma atitude meramente amadora ou de senso comum perante a filosofia.
O primeiro factor é o saber-fazer envolvido na filosofia. Para se fazer filosofia é preciso dominar os instrumentos do ofício: saber discutir ideias, saber traçar distinções importantes, saber distinguir versões subtilmente diferentes de teorias análogas e, claro, compreender os problemas da filosofia. Sem estas competências fundamentais não é possível fazer filosofia competentemente; não é sequer possível fazer história da filosofia competentemente.
O segundo factor é o que nos importa aqui, pois está relacionado com a história da filosofia. Esse factor foi apresentado de forma muito directa no manual A Arte de Pensar: 10.º ano(Didáctica, 2003):
Quando discutimos uma ideia filosófica verificamos muitas vezes que essa ideia tem uma história; houve outras pessoas que a defenderam ou atacaram. É por isso importante saber o que os grandes filósofos pensaram. Nada há de extraordinário nisto. Se estás preocupado em saber se o relativismo é ou não aceitável, é uma boa ideia tentar saber o que as outras pessoas pensaram sobre isso. Afinal, pode ser que o que elas pensaram te ajude a pensar melhor — quer concordes, quer discordes delas. (Vol. 1, pág. 18)
O que está em causa é de facto banal e muito simples, mas é muitas vezes mal compreendido, com elucubrações obscurantistas sobre a "historicidade do pensar". Outras vezes, talvez para fugir aos obscurantismos, é pura e simplesmente ignorado, como acontece com alguns manuais escolares (é o caso do manual 705 Azul, de Fátima Alves, José Arêdes e José Carvalho, Texto Editora, 2003). O problema de ignorar a história da filosofia não é uma questão de apresentar menos erudição. O problema é que se ignorarmos a história da filosofia estaremos a trilhar caminhos que já foram trilhados — como se estivéssemos a redescobrir a pólvora. Isso é pura e simplesmente perder tempo. Se certo tipo de teorias já foram exploradas e já conhecemos os seus problemas, se certas distinções fundamentais já foram exploradas, então estaremos a perder tempo se as ignorarmos — pois voltaremos a percorrer os mesmos passos. É um pouco como um músico que, desconhecendo a grande tradição atonal, reinventa ignorantemente esta forma musical.
Precisamente como no caso da música, não se trata de dizer que uma pessoa não pode hoje defender, por exemplo, uma certa versão da ética das virtudes de Aristóteles. Sem dúvida que pode — e há quem o faça, como a filósofa Philippa Foot. Só que irá defender uma versão sofisticada, que não sofre dos problemas que ao longo dos séculos foram apontados não apenas à teoria de Aristóteles, mas também às outras grandes teorias éticas alternativas, como o deontologismo e o consequencialismo. E é esta diferença de sofisticação que faz a diferença entre uma postura amadora e simplista em filosofia e uma postura profissional e sofisticada. Quem está na filosofia a sério tem de estar informado sobre o que os outros filósofos — do passado e do presente — defendem, tem de conhecer os seus argumentos e as suas teorias, e tem de estar a par da discussão filosófica.
Em suma, a necessidade de estudar os grandes filósofos do passado e do presente resulta da necessidade de não se perder tempo a defender o que já foi defendido e discutido, por um lado, e da necessidade de tentar ir um pouco mais longe na compreensão das coisas do que foram os nossos antepassados e os nossos colegas contemporâneos.
No ensino, esta ancoragem histórica é particularmente importante, sob pena de se pretender estudar filosofia sem filósofos. Em alguns manuais escolares (como no referido 705 Azul), a filosofia é apresentada no primeiro capítulo ao longo de muitas páginas sem se apresentar um único filósofo, clássico ou contemporâneo. Isto dá ao estudante uma ideia falsa da filosofia, pois não o ensina a ter uma atitude adequada perante a história da filosofia. O oposto disto é transformar a filosofia em mera história da filosofia, substituindo o trabalho verdadeiramente filosófico e criativo da filosofia pela mera compreensão do que dizem os grandes filósofos do passado e do presente. O correcto ensino da filosofia está entre estes dois extremos — entre o extremo da a-historicidade de alguns manuais escolares e o extremo redutor em que a filosofia se transforma em mera história da filosofia. O que é difícil é dar ao estudante a ideia correcta de que tem de compreender correctamente os filósofos do passado e do presente que serão leccionados, mas que isso é um meio para pensar por si e para tomar uma posição fundamentada. Se não nos esforçarmos por fazer isso, o ensino da filosofia transforma-se em rapsódias de temas modernaços, sem qualquer referência a filósofos centrais do passado e do presente, ou em meras historietas das ideias filosóficas, sem que ao estudante seja dada a experiência do filosofar. E é precisamente esta experiência que urge reivindicar. E isso exige um equilíbrio entre os dois opostos redutores: o que reduz a filosofia à sua história e o que esquece a história da filosofia.
Desidério Murcho
Disponível também em http://criticanarede.com/fil_historicidade.html Acesso em 10/03/14